4 O Projeto de Modernização de Porto Firme

Consideramos como modernização urbana as transformações materiais realizadas numa cidade, bem como os processos sociais que se efetivam no cotidiano, impactados por esse turbilhão de mudanças. Neste sentido, o processo de modernização da cidade de Porto Firme ocorreu gradualmente, com aperfeiçoamento dos equipamentos urbanos e das relações socioculturais. Por meio de algumas estratégias e por intermédio de instituições, como a Igreja e as escolas, a população foi adquirindo novos comportamentos, considerados mais adequados ao espaço urbano, o que propiciou uma nova paisagem, dentro dos moldes desejados pela elite dominante.

4.1 O planejamento urbano e as transformações da paisagem local

Tradicionalmente, o anseio pela emancipação política e administrativa de uma cidade costuma estar vinculado ao desejo de ter autonomia local para determinar as direções do seu crescimento. Isso também foi o que ocorreu em Porto Firme. Para efetivar este objetivo, a elite dominante foi delineando um planejamento urbano, e uma das estratégias de gestão municipal (planejamento urbano) deste município, adotadas desde a sua instalação, em janeiro de 1954, foi o estabelecimento de leis, dentre elas as que regulamentavam a arrecadação de impostos e a abertura de créditos bancários. Assim, desde os tempos mais remotos, algumas melhorias urbanas foram realizadas por meio de empréstimos junto a bancos, como a Caixa Econômica.

Segundo relatos, o processo de desenvolvimento de Porto Firme era “lento” no início da década de 1950 e a cidade era um lugar “pobre e atrasado”. Estes termos constituem-se uma referência não apenas ao espaço físico local, mas também aos recursos disponíveis e às dificuldades enfrentadas pelos moradores e gestores públicos.

Embora tenha sido emancipada política e administrativamente do município de Piranga, e ainda pertença a esta comarca, desde os tempos mais remotos, Porto Firme tem estabelecido maiores vínculos e relações em diversas áreas (como saúde, comércio e educação) com o município de Viçosa. Isto se justifica, a princípio, pelas proximidades geográficas e, também, pelo fato de Viçosa possuir a Universidade Federal de Viçosa.

Nas primeiras décadas após a emancipação da cidade, a realidade local era bastante precária, pois não havia, inclusive, rede de esgoto em algumas residências. A alternativa adotada por estes habitantes era a construção de fossas (funcionava como banheiro externo à casa), em condições insalubres. Outra prática comum naquele período era a criação de animais no espaço urbano, como porcos e galinhas, tanto para fins comerciais quanto para a subsistência. Estas práticas foram paulatinamente sendo modificadas pelas legislações municipais, que as tornaram proibidas, principalmente por questões sanitárias e pelo incômodo dos vizinhos com o mau cheiro e insetos.

Segundo relatos dos porto-firmenses, as maiores transformações urbanas, especialmente na parte de pavimentação das ruas, ocorreram entre as décadas de 1970 e 1980. Em 1971, por exemplo, todas as ruas ainda estavam sem calçamentos e a primeira delas a ser pavimentada foi a Rua São José, onde havia o Hospital Dom Silvério. Esta precariedade na infraestrutura urbana, relativa à ausência da pavimentação das vias públicas desta cidade, era motivo de vergonha por parte de alguns moradores quando viajavam para outras cidades com melhores condições, pelo fato de estarem com roupas e pés empoeirados.

Conforme levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2010, alguns aspectos da sua infraestrutura urbana de Porto Firme permaneciam precários, como, por exemplo, o fato de mais de 50% dos porto-firmenses não possuírem esgoto sanitário adequado e nem vias públicas com urbanização adequada.

Um dos exemplos de planejamento urbano de Porto Firme de forma pontual foi a criação e implementação das leis ao longo do tempo para a regulação e o ordenamento da cidade. Nesse sentido, tivemos o estabelecimento das seguintes legislações de maior amplitude nas últimas décadas: Lei 900/2005- Instituiu o Código de Posturas do Município de Porto Firme; Lei Orgânica do Município de Porto Firme, 2010; e a Lei nº 1.189/2020 - normatizou o parcelamento do solo no Município de Porto Firme. Destacamos os Artigos 27, 28 e 33 da Lei 1.189/2020, que tornou obrigatória a execução dos serviços de infraestrutura básica pelo loteador, especificamente em se tratando dos “equipamentos urbanos destinados ao escoamento das águas pluviais, a iluminação pública, as redes de esgotamento sanitário e de abastecimento de água potável, de energia elétrica pública e domiciliar e as vias de circulação pavimentadas”. Ela normatizou, ainda, os projetos de parcelamento do solo urbano, com definições, por exemplo, de espaços livres para uso público, as áreas verdes, as praças e similares, e estabeleceu uma área mínima de 35% da gleba a ser destinada às áreas públicas. Além disso, trata do condomínio horizontal fechado, das sanções administrativas, da regularização de imóveis de ocupação consolidada etc. Porém, a cidade ainda não tem um código de obras e edificações.

É inegável a importância das regulamentações neste processo de ordenamento urbano. Todavia, é preciso que elas representem os interesses de todos os grupos sociais da cidade, que ela realmente seja impessoal e que todos sejam obrigados a cumpri-las. Não basta criar leis municipais: é preciso definir os mecanismos de viabilizá-las. Isto requer investimentos permanentes em infraestrutura física, equipamentos e em pessoal qualificado. A população precisa ser convidada/mobilizada a participar desta construção das regulamentações. Além disso, é indispensável a existência de uma fiscalização rigorosa, ética e justa, bem como a punição aos infratores.

4.1.1 A Praça Juquinha Moreira

A praça central de Porto Firme, conhecida como “Praça Juquinha Moreira”, é um espaço público que, além do seu valor histórico e simbólico, tem uma grande importância para os porto-firmenses. Está localizada na margem direita do rio Piranga e fica a poucos metros de distância dele. Esta praça já foi identificada por diversos nomes, dentre eles, Rua 2, Rua da Praia e Praça Raul Soares. Entre os anos de 1969 e 1988, aproximadamente, a Praça Central foi denominada de Raul Soares. A partir da promulgação da Lei Municipal 562/88, ela foi renomeada como “Praça Juquinha Moreira”.

O histórico de enchentes do rio Piranga e alagamentos nesta praça em períodos de maior intensidade pluvial é bastante recorrente. Conforme Figura a seguir, em 1951 esta Praça Central teve a maior enchente de sua história, tendo causado muitos prejuízos aos moradores e comerciantes locais. As pessoas perderam suas casas e/ou comércios e tiveram muitos prejuízos.

Local onde atualmente é a Praça Central de Porto Firme, década de 1950
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Como consequência dessa tragédia, as pessoas afetadas foram indenizadas e muitas adquiriram terrenos nas proximidades da Nova Matriz. Os comerciantes e moradores próximos à Praça procuraram ocupar outros locais mais altos para construir novas habitações e comércios. Desde aquele período, tornou-se muito comum as construções serem mistas e terem estas duas funções: residência e comércio. Um dos comerciantes que passou por este processo foi o Senhor Juquinha Moreira, que era alfaiate, e sua família. Ele foi um dos que adquiriu um lote pertencente à Igreja Matriz de N.S. da Conceição, localizado na Av. 18 de Agosto. Ao longo dos anos houve outras enchentes, como em 2008, que também causaram muitos prejuízos aos moradores, comerciantes e danos aos equipamentos urbanos desta praça. Tragédias como estas deixaram marcas importantes na paisagem e influenciaram em alguns deslocamentos comerciais e residenciais para outras regiões da cidade.

A Praça Juquinha Moreira passou por diversas transformações, não só em consequência dos eventos climáticos, mas também por decisões políticas e administrativas, no sentido da inclusão, substituição e eliminação de elementos da paisagem. Uma delas foi a construção de um parque municipal infantil, tendo existido entre os anos de 1959 e 1966, aproximadamente. Localizava-se onde atualmente é a praça de lazer. Entre os anos de 1959 e 1962 havia uma edificação com um telefone público, fabricado nos Estados Unidos, onde atualmente é a residência do Senhor “Nadico”. Na época, o proprietário do imóvel era o Senhor Geraldo Bento. A comunicação era intermediada por duas telefonistas, sendo que uma ficava na cidade de Viçosa e a outra em Porto Firme, ambas responsáveis por realizar as ligações e fazer os agendamentos para que as pessoas pudessem se comunicar num horário específico. Algumas das telefonistas de Porto Firme foram as senhoras Ilza Maria Pierre e Terezinha Janote. O referido aparelho foi inventariado pelo Conselho de Patrimônio local entre 2010-2012, em estado original, e o seu local de guarda era uma sala da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, no edifício-sede da prefeitura.

Inauguração do telefone público na Praça Central
Fonte: Autor desconhecido. Data aproximada: 1959.

Em 1969, a administração municipal inaugurou a Estação Rodoviária denominada Gerônimo Gato (Figuras adiante), na Praça Raul Soares (atual Praça Juquinha Moreira). Era um ponto de embarque e desembarque dos passageiros.

Inauguração da Rodoviária Gerônimo Gato, em 1969
Fonte: Autor desconhecido.

Na Figura acima, a imagem mostra o momento da inauguração do terminal rodoviário, com a presença de autoridades políticas e religiosas.

Rodoviária Gerônimo Gato, década de 70
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Por volta do ano de 1984, uma nova rodoviária foi construída pela administração municipal na Praça Deco Vidigal, na antiga saída para a cidade de Piranga, e recebeu outro nome: “Tatão de Deco”. Segundo testemunhos de moradores, depois de alguns anos, a empresa que faz a linha de ônibus de Porto Firme a outras cidades foi simplesmente deixando de ir a este terminal rodoviário e voltou a embarcar e desembarcar os passageiros dos ônibus na Praça Juquinha Moreira, ao lado de um bar. O mesmo passou a ser o local de vendas de passagens, sem nenhuma estrutura apropriada para acolher as pessoas. A cidade possui diversos horários de ônibus, atendendo passageiros que estão em trânsito entre as cidades, como Piranga, Conselheiro Lafaiete, Belo Horizonte e Viçosa.

Durante muitos anos, o transporte interurbano de passageiros existente no trajeto entre as cidades de Porto Firme e Viçosa era constituído de apenas um ônibus. Era uma viagem demorada pelas péssimas condições da estrada, que saía às sete horas e retornava por volta das dezessete horas. Com isso, os passageiros tinham que permanecer o dia todo em Viçosa, mesmo quando o motivo da viagem demandasse pouco tempo. Na imagem a seguir, temos as transformações dos ônibus que fizeram a linha Porto Firme a outras cidades próximas e para Belo Horizonte (capital de Minas Gerais), ao longo do tempo (o último continua fazendo).

Transformações do transporte coletivo intermunicipal (entre as décadas de 1970 a 2010)
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Entre os anos de 1967 e 1970, a Praça foi reformada, houve a construção de calçadas, jardins e plantio de árvores. No período natalino, as árvores eram enfeitadas com lâmpadas coloridas. À medida que a praça recebia novos melhoramentos, como calçadas e bancos, tornava-se um ponto de encontro da juventude, especialmente para os casais de namorados. Porém, naquela época, o chão da Praça ainda era de “terra batida”. Somente entre os anos de 1971 e 1973 é que a administração municipal implantou o calçamento de paralelepípedos. Na década de 80, ela foi reformada, e o jardim passou a ser num nível mais elevado que o piso (Figura adiante). Esta estratégia parece ter sido uma tentativa de evitar ou amenizar os prejuízos recorrentes das águas das enchentes neste local. Os recursos utilizados nesta obra foram da própria prefeitura municipal.

Jardim com piso elevado na Praça Juquinha Moreira
Fonte: Imagem retirada do vídeo no YouTube “O acaso nos uniu - I encontro de egressos da EICON, 1º grau 1979. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=627Z7Z1c3yI. Acesso em 10/10/2022.

No passado, tiveram ainda alguns clubes (pequenas danceterias) na referida praça, a saber: Clube Candelabro, Clube da Mangueira e Clube Beira Rio, que marcaram diversas gerações, por ter sido lugar de diversão, encontros e outros.

Clube Beira Rio (s/d)
Fonte: Acervo pessoal de V.O.P 1.

Na atualidade, a Praça Juquinha Moreira não tem mais as “danceterias”, mas continua favorecendo momentos de encontros, lazer e diversão. O prédio onde funcionou o “Beira Rio” possui salas comerciais, uma academia e outras instalações. Segundo relatos, os momentos vivenciados nestes clubes marcaram gerações e deixaram saudades. Assim, a paisagem da Praça tem sido marcada por um aumento crescente de bares com pequeno espaço interno e os clientes sendo atendidos em mesas colocadas em calçadas e nas vias públicas.

Outro elemento que também fez parte desta paisagem da área central de Porto Firme foi a Praça de Esportes/quadra poliesportiva “Chico Benjamim”, construída durante a gestão do prefeito Francisco José Moreira, entre os anos de 1983-1988. Esta praça de esportes localizava-se na Praça Central, e era cercada por tela e hibiscos. Tinha uma piscina semiolímpica, uma quadra poliesportiva, banheiros e um espaço coberto, onde funcionava a parte administrativa. Era um local fechado, restrito aos que podiam colaborar, isto é, às pessoas pagavam uma taxa para poderem usufruir dele.

Entre os anos de 2005 e 2008, a antiga praça de esportes foi demolida e, no seu lugar, a administração municipal construiu uma praça de lazer aberta ao público em geral, tornando-se bem mais democrática. Nela foram instalados bancos e aparelhos de ginástica (academia ao ar livre), ao passo em que foram construídos estacionamentos e plantadas árvores de pequeno porte.

Antiga praça de esportes, à esquerda, e a “atual” praça de lazer, à direita, localizada na Praça Juquinha Moreira (s/d)
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Ressaltamos a importância de uma política municipal de manutenção permanente dos aparelhos e deste espaço como um todo. Os investimentos públicos em projetos relativos aos esportes e às atividades físicas são extremamente importantes para a sociedade, mas precisam ser realizados com muita cautela e responsabilidade social, afinal, os recursos investidos nessas obras públicas, na maioria dos casos, são oriundos dos impostos pagos por todos nós cidadãos.

Outra transformação radical realizada pela administração municipal na Praça Juquinha Moreira ocorreu em 2005, tendo sido investidos aproximadamente R$108.000,00 na ocasião. Nesta intervenção houve uma reconstrução, que modificou completamente o antigo desenho da Praça. O projeto, considerado como moderno, resultou na instalação de uma grande calçada em pedra portuguesa, com canteiros ao centro, dividindo o trânsito e a Praça em duas partes. Na primeira parte foram instalados um relógio digital, um termômetro e bancos em madeira e concreto, bem como foram plantadas algumas árvores. Por meio da imagem abaixo, é possível observar alguns detalhes do projeto:

Projeto de reforma da Praça Juquinha executado e concluído em 2005
Fonte: Jornal Folha de Porto Firme, maio 2005.

Praça Juquinha Moreira, décadas de 1980 e 2010
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9, com destaque realizado pela pesquisadora.

Na Figura acima, temos uma comparação de uma parte da Praça com uma imagem da década de 1980 e outra do ano de 2013. Por meio delas podemos perceber modificações significativas, como a questão da pavimentação da via pública, o aumento do número de árvores (palmeiras) no local, o aumento da quantidade, do tamanho e da altura das novas edificações, a instalação de bancos, a expansão da área construída etc. Em tempos mais recuados, havia muitos espaços vazios e era possível visualizar as montanhas. Já no século XXI, este cenário foi alterado com as construções de edifícios de três e quatro pavimentos. O canteiro central também foi rebaixado e ampliado, estendendo-se em toda a extensão da praça.

As estruturas iniciais da Praça Juquinha Moreira, na década de 1980 eram bem simples e precárias. Ao longo do tempo, a administração municipal investiu e promoveu várias transformações nesta parte da paisagem urbana de Porto Firme. Logo, ela é uma das praças da cidade que mais recebeu intervenções e investimentos públicos. Além de ser o centro da cidade, esta Praça é o lugar que mais atrai as pessoas para o lazer e para os encontros. Além disso, ela foi um local de realização de festas cívicas, como a Festa de Aniversário da cidade, no mês de agosto, carnaval, réveillon, gincanas e celebrações religiosas. Algumas destas realizações ainda ocorrem neste espaço público.

Assim como as pavimentações urbanas, as construções, reformas, manutenções das praças e jardins também são importantes para a qualidade de vida e para a sociabilidade dos habitantes da cidade. A praça de predileção de muitos porto-firmenses é a Praça Juquinha Moreira e nos finais de semana ela é bem apreciada por muitas pessoas.

4.1.2 A Praça Padre Raimundo

A Praça Padre Raimundo é conhecida também como Praça da Matriz, localizada entre a Avenida 18 de Agosto, a Travessa Joaquim Custódio e a Rua Dom Silvério. Ela está em frente à Igreja Matriz de N. S. da Conceição. Até os anos 60, aproximadamente, esse local era apenas um grande largo de terra batida. Desde o projeto inicial do ordenamento territorial dessa região da Igreja Matriz é possível observar que o espaço para a construção desta Praça já estava previsto.

A escolha do nome da Praça Padre Raimundo foi uma homenagem, ainda em vida, ao Monsenhor Raimundo Gonçalo Ferreira, como uma forma de reconhecimento pela sua dedicação à comunidade local, por vinte anos de trabalho (1935 a 1955). No dia da inauguração, no ano de 1960, além das autoridades presentes e da população, o próprio homenageado também participou deste momento festivo e histórico.

Esta praça também tem sido o local escolhido para a realização de diversos eventos cívicos e encontros. Um deles ocorreu em 1960, num encontro da comunidade escolar municipal da zona rural de Porto Firme. Neste evento houve apresentações culturais de dois mil alunos e professores das dezoito escolas rurais, coordenado pela inspetora escolar da época, com a participação de políticos, fazendeiros e outros componentes da administração municipal.

Local onde foi construída a Praça Padre Raimundo, década de 1960
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9, visitação dos alunos e professores das escolas rurais à cidade.

Praça Padre Raimundo, década de 2010. Imagem anterior à última reforma
Fonte: autor desconhecido.

Ao longo do tempo, a Praça Padre Raimundo e seu entorno passaram por algumas reformas e modificações. A partir dos anos 2000, as vias públicas nas proximidades desta Praça foram asfaltadas e sinalizadas. No mesmo período, a arborização existente era de portes diversificados, assimétricos, como bromélias e o Ipê amarelo. Mesmo havendo algumas críticas quanto à inadequação da proximidade dos assentos e o sombreamento da Praça Padre Raimundo, ela é comparada com um bosque, um local tranquilo, propício à visitação, à contemplação e à permanência.

Imagem aérea da Praça Padre Raimundo, 2018
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

A Figura acima demonstra uma imagem da Praça Padre Raimundo após a última reforma, em 2017, realizada pela administração municipal, sob a liderança do Prefeito Reginaldo Barbosa, tendo sido uma das mais significativas. Suas características demonstram que este espaço público foi construído e reformado a partir de um planejamento juntamente com os demais espaços do entorno da matriz. Essa alteração realmente representou importantes melhorias nos mobiliários urbanos presentes nela. Pelas imagens acima podemos perceber que as intervenções realizadas nesta praça procuraram manter suas características básicas e promoveram poucas alterações ao longo do tempo. Seu formato simétrico e retangular foi conservado desde o projeto inicial.

Cabe-nos ressaltar a importância e a necessidade de um planejamento municipal que inclua estratégias relativas às manutenções periódicas (preventiva e corretiva) dos equipamentos e mobiliários dessas Praças Juquinha Moreira e Padre Raimundo, bem como dos demais espaços públicos da cidade. Ações preventivas, como pinturas, limpeza urbana e podas de árvores são fundamentais para o embelezamento urbano, para a redução de despesas públicas com substituições de equipamentos deteriorados por exposição a intempéries climáticas, bem como contribui para prevenir acidentes. A colaboração da população no uso e na conservação dos patrimônios e dos espaços públicos é extremamente importante para que os mesmos permaneçam em boas condições de uso pelo maior tempo possível.

A Avenida 18 de Agosto e a Rua Dom Silvério

Assim como as Praças acima abordadas, estas duas vias públicas de Porto Firme, a Avenida 18 de Agosto e a Rua Dom Silvério, também foram construídas no início do seu processo de urbanização, entre as décadas de 1940-1950 (aproximadamente). Elas figuram entre as primeiras vias públicas projetadas e construídas juntamente com a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, por iniciativa de lideranças políticas, religiosas e pela comunidade local.

4.1.3 A Avenida 18 de Agosto

Avenida 18 de Agosto, década de 1970
Fonte: Acervo pessoal de V.O.P 1.

Na década de 70, a Avenida 18 de Agosto era um local de importantes eventos cívicos, como os desfiles das escolas da cidade em comemoração à Independência do Brasil. Naquele período, ela ainda não era pavimentada. Em 1978, o prefeito Ciro S. Maia foi convencido por membros da comunidade local a pavimentar parte desta Avenida, em frente ao atual prédio da Prefeitura Municipal. Esta intervenção objetivou atender às demandas da comunidade para construir uma quadra poliesportiva para a realização de uma olimpíada municipal. Esta iniciativa foi em prol da comemoração, pela primeira vez, do aniversário da cidade (vinte e cinco anos de emancipação política e administrativa). Até então, essa comemoração se resumia em celebrações religiosas católicas, realizadas no dia 18 de agosto, com a participação da população e dos administradores municipais. Para este feito, utilizaram cimento armado e ferragens. O referido evento esportivo foi coordenado pelo Senhor Benevenuto de Paula Simões (conhecido como “Cabo Bené”). As modalidades praticadas foram: voleibol, futebol, corrida rústica, corrida com um saco de areia de 60 kg nas costas, prova de equilíbrio e corrida de bicicleta.

Ao longo do tempo, outras intervenções foram realizadas nesta Avenida 18 de Agosto. Conforme a Figura adiante, na década de 1990 era possível perceber a existência de um calçamento de pedras hexagonais e a arborização no canteiro central, que contribuía com o embelezamento da Avenida. Naquele período, prevaleciam edificações de altimetria de um pavimento apenas. Mas, hoje, isto vem se alterando paulatinamente e algumas edificações desta via possuem quatro pavimentos. Ademais, uma característica comum do passado e do presente é a predominância de edificações de uso misto (residenciais e comerciais).

Avenida 18 de Agosto, década de 1990
Fonte: Acervo pessoal de V.O.P 1.

As transformações nesta paisagem prosseguiram na administração do prefeito Francisco José Moreira (conhecido como “Quito Benjamim”). Conforme Figura abaixo, em 2003 a cidade passou a ter um Monumento do Cinquentenário de Porto Firme, em formato circular, tendo o brasão da cidade fixado nele. Foi construído em comemoração aos cinquenta anos de emancipação política e administrativa da cidade, no mesmo local onde se festejou os 25 anos deste processo, na Avenida 18 de Agosto, em frente à Prefeitura Municipal.

Avenida 18 de Agosto (com o Brasão), em frente à Prefeitura de Porto Firme, entre 2003 e 2004, aproximadamente
Fonte: Dossiê do Conselho de Patrimônio de Porto Firme, IPAC, 2011, p. 317. Acervo Flash.

Nesta imagem acima, verifica-se o piso cimentado na Avenida 18 de Agosto, em frente à Prefeitura de Porto Firme, onde já funcionou como uma quadra poliesportiva. Como se pode notar, com o auxílio das outras imagens, essa Avenida passou por diversas transformações. Uma delas foi a eliminação do referido monumento, pois, em 2018, ele já não fazia parte da paisagem urbana. O mesmo era um patrimônio público, inventariado pelo Conselho de Patrimônio local entre os anos de 2010-2011. No local foi construída uma rotatória, com uma árvore no centro do canteiro.

Nesse local está concentrada uma parte considerável das edificações públicas da cidade. Assim, além de abrigar a sede do poder local, o Prédio da Prefeitura, esta Avenida possui muitas edificações e praças: a Câmara Municipal, a EICON, a Praça Padre Raimundo, a Unidade Básica de Saúde Prefeito José Maciel, entre outras. O comércio existente nessa Avenida, em pequena escala, inclui lojas de roupas, açougue, papelaria, clínica odontológica, salão de beleza, entre outros. Estes comércios estão concentrados no primeiro piso das construções e os demais pavimentos são utilizados como residências. Estas edificações, tanto as públicas quanto as privadas, não possuem um estilo arquitetônico definido e foram construídas no alinhamento da via. Há edificações com telhados coloniais, sustentados por pilares de alvenaria, como também há coberturas feitas por uma estrutura metálica, conhecida como telhado paulista.

Avenida 18 de Agosto, 2018
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Segundo alguns registros, em 2011, a arborização da paisagem dessa avenida era pouco significativa, com algumas palmeiras e arbustos, além de hibisco recoberto por cipó, predominando espécies de árvores de grande e médio porte. Por outro lado, na avaliação de alguns porto-firmenses, na atualidade, com o crescimento das árvores de porte mediano plantadas no canteiro central desta Avenida e a substituição das gramíneas por pisos de concreto, esta via pública está mais bonita. Tal apreciação incluiu, ainda, outras modificações e investimentos realizados na mesma, como o asfaltamento em toda a sua extensão. Dessa forma, a Avenida 18 de Agosto é uma das vias que mais passou por transformações/intervenções, com grandes investimentos em melhorias da sua infraestrutura e embelezamento.

4.1.4 A Rua Dom Silvério

Localizada no centro da cidade, a Rua Dom Silvério tem sua formação e expansão relacionada, no final da década de 1940, à edificação da Igreja Matriz N. S. da Conceição. Dois diferenciais desta Rua, desde o seu início, são a sua largura e a sua extensão. Na referida década, a maioria das edificações desta via pública foram construídas no alinhamento da via, possuíam uma estrutura bem simples, telhado colonial, um pavimento e sem um estilo arquitetônico definido. Algumas destas características ainda estão presentes até os dias atuais, como podemos perceber na Figura, a seguir, com poucas alterações.

Rua Dom Silvério, à esquerda, na década de 80 e, à direita, no ano 2012
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Nesta imagem, o destaque maior está na transformação significativa de uma paisagem rústica para uma aparentemente mais moderna, com ênfase para o asfaltamento e a arborização do canteiro central, entre os anos de 1980 e 2012. Percebemos que, na década de 80, diferentemente dos alinhamentos das casas às calçadas, os responsáveis pela edificação da E. E. Solon Ildefonso tiveram um cuidado em deixá-la com um maior afastamento da margem da Rua. Neste período ainda não havia calçamento e nem o canteiro central. Por outro lado, já havia energia elétrica e iluminação pública. Desde o ano de 2012, esta Rua já era pavimentada com asfalto, exceto em frente à Igreja Matriz, que continua sendo pavimentada por pedras retangulares. Além disso, ela possui, desde então, travessia de pedestre devidamente sinalizada, um canteiro central com árvores de porte médio e com gramíneas. Contudo, recentemente, estes elementos foram substituídos por palmeiras e por pedras de concreto avermelhadas.

Tanto a Avenida 18 de Agosto quanto a Rua Dom Silvério são áreas que, historicamente, tiveram atenção diferenciada das administrações municipais e dos líderes religiosos em relação à infraestrutura, à paisagem e ao embelezamento das mesmas. A construção dos canteiros centrais arborizados nelas instalados após a década de 80, como pode ser observado nas imagens, impactou positivamente a paisagem.

Estes processos de intervenções urbanas no lado direito da cidade, nos espaços públicos mencionados, ruas, avenidas e praças constituem-se tentativas de modernizar a cidade. Com isso, observamos que uma administração municipal precisa pautar-se num planejamento a curto, médio e longo prazo. Isto possibilita a execução de projetos mais adequados à realidade e necessidades locais.

Nas últimas décadas tem se destacado, em Porto Firme, o aumento expressivo de projetos de requalificação dos seus espaços centrais, como praças e avenidas, tornando-as cada vez mais valorizadas. Esses e outros investimentos públicos realizados nessa região, ao longo do tempo, com praças e jardins bem cuidados, ruas largas e pavimentadas, favorecem a valorização dos imóveis. No entanto, as ações do poder legislativo e executivo municipal, bem como dos técnicos e dos planejadores urbanos, precisam estabelecer critérios de prioridades dos investimentos relacionados à infraestrutura e ornamentação urbana, pois ambos são importantes para a qualidade de vida e devem contemplar os anseios da população em geral. Administrar uma cidade envolve fazer escolhas, mediar interesses conflitantes e tomar decisões pautadas na justiça social.