2 O CONTEXTO HISTÓRICO DA FORMAÇÃO DA CIDADE DE PORTO FIRME

Os primeiros povos a habitarem a região da Zona Mata, nas margens do antigo rio Guarapiranga, onde se localiza Porto Firme, foram nativos das etnias Botocudo e Puri. No século XVIII, com a descoberta do ouro nesta região das matas, a dinâmica do povoamento foi alterada pela chegada de bandeirantes paulistas, bem como de portugueses, negros escravizados do continente africano e outros. Um dos líderes que se destacaram nesta dinâmica de repovoamento e da exploração aurífera inicial deste território foi o bandeirante paulista João Siqueira Afonso.

Além das disputas entre forasteiros (emboabas) e paulistas, houve também confrontos com os povos nativos, os indígenas. Muitos desses nativos foram escravizados nas fazendas agrícolas da região, mortos ou catequizados na doutrina católica. A religiosidade vinculada ao catolicismo sempre foi determinante na formação da nação brasileira como um todo, e não só nesta região de Minas Gerais. Só mais recentemente é que esta configuração vem se alterando, com os adeptos a outras doutrinas religiosas e os ateístas.

Com o declínio da exploração mineral, os povoadores passaram a se dedicar também à produção agrícola (café, milho, feijão, arroz, banana etc.) e à pecuária. Como a região possuía um solo fértil, cultivaram inicialmente para a subsistência e, num segundo momento, como fonte de renda. Outro fator que também impulsionou o crescimento do local, chamado inicialmente de Tapera (e cujo nome vigorou até meados dos anos de 1876), foi a inauguração da Estrada de Ferro Leopoldina em 1874. Sua construção estava ligada, a princípio, à economia do café, e ela atravessava a cidade de Viçosa.

Entre os anos de 1753 e 1864, o pequeno povoado de Tapera era parte do território da Freguesia de Guarapiranga e pertencia a Ponte Nova. Em 1864, Tapera foi desmembrada de Ponte Nova, tornando-se distrito integrado a Piranga. Guarapiranga era o nome do povoado que se tornou a cidade de Piranga e, posteriormente, também foi o nome do rio que corta a cidade de Porto Firme, atualmente chamado rio Piranga.

Os dados do censo de 1831 demonstravam a existência do povoado chamado de capela da Tapera, com 1.723 (um mil, setecentos e vinte e três) pessoas livres e 169 (cento e sessenta e nove) cativos, totalizando um 1.892 (mil e oitocentos e noventa e dois) habitantes. Eles construíram suas casas mais precárias, de acordo com as condições e com a cultura da época, sendo isto uma das justificativas para a origem do topônimo deste povoado – Tapera. Este vocábulo possui origem indígena Tupi e quer dizer habitação abandonada ou extinta.

Contudo, o topônimo foi alterado entre 1876 e 1877, quando o distrito de Tapera foi elevado à Paróquia de N. S. do Porto Seguro. Já em 1923, na divisão administrativa do estado de Minas Gerais estabelecida pela Lei 843/1923, o distrito aparece apenas como Porto Seguro e pertencente ao município de Piranga. Naquela época havia muitos viajantes, vendedores e tropeiros que transitavam neste povoado. Eles passavam pela Fazenda do Porto, pertencente ao Capitão João Batista de Araújo Silva, e atravessavam o rio por meio de canoas. Era um local considerado seguro e isso acabou influenciando na substituição do nome Tapera para Porto Seguro.

Pelos registros históricos e arquitetônicos, o núcleo inicial do Distrito de Porto Seguro formou-se nas proximidades do rio Guarapiranga e também da antiga Paróquia Porto Seguro (posteriormente chamada de Igreja Matriz do Rosário, até 1951), localizada em um lugar alto do povoado e em direção à cidade de Guaraciaba. Outro elemento que compunha este primeiro núcleo de povoamento era o cemitério, cuja construção na parte dos fundos desta Igreja se deu no mesmo período do templo religioso, por volta do ano de 1753. Até recentemente, no entorno deste templo religioso havia alguns casarões, um deles pertencentes à família Vidigal. Tal imóvel, além de ser residência desta família, também foi sede do cartório da cidade por muitos anos.

A alteração do nome do Distrito de Porto Seguro para Porto Firme ocorreu por meio do Decreto-Lei Estadual nº1058, de 31/12/1943. Esta renomeação deveu-se à existência de uma cidade com o mesmo nome, localizada no estado da Bahia. A duplicidade dos nomes ocasionava o desvio das correspondências para lá.

A Constituição Federal de 1946, com sua tendência descentralizadora (considerada municipalista), e a política estadual mineira da década de 1950 (voltada para a reforma na divisão administrativa municipal) favoreceram a criação de muitos municípios brasileiros. As ações estratégicas das lideranças políticas porto-firmenses, somadas a esta circunstância jurídica favorável, facilitaram o êxito no processo emancipatório de Porto Firme e o seu desmembramento de Piranga.

Houve uma organização local e a composição de uma Comissão Pró-emancipação, tendo os seguintes membros/líderes locais: Josefino Sena Campos, Octacílio Maciel, Francisco Xavier Chaves Paes, Dr. Cyro de Aguiar Maciel e José de Castro Vidigal (Juquinha Totó). Segundo relatos, as reuniões desta Comissão Pró-emancipação ocorreram muitas vezes informalmente, por meio de encontros não programados. Eles foram assessorados pelo Dr. Cyro Aguiar Maciel, deputado estadual pelo Partido Republicano entre 1951 e 1963, o qual os orientava sobre as providências necessárias, tendo o próprio também realizado alguns encaminhamentos para a formalização do processo emancipatório de Porto Firme.

Um dos grandes marcos da expansão territorial do distrito de Porto Seguro (atual Porto Firme) teve início na década de 1940, com a construção da Nova Matriz, e que culminou com a emancipação municipal, em 1953, um ano depois da inauguração do templo religioso. Neste período constava que Porto Firme tinha mais de 200 moradias, renda superior a 100 mil, e número de habitantes (rural e urbano) aproximado de 10.400. Estes dados demonstravam que as exigências legais, estabelecidas pela Comissão de Estudos da Divisão Administrativa e Jurídica de MG - CEDADE, já estavam atendidas e, portanto, o distrito já estava apto a se desmembrar de Piranga e a se emancipar.

Entre os anos de 1951 a 1954, o prefeito municipal de Piranga era o Senhor Sebastião Vidigal Fernandes (conhecido como Tatão de Deco), morador de Porto Firme e amigo do governador de Minas Gerais. Ambos desejavam tal emancipação. Desta forma, as lideranças políticas, incluindo o referido prefeito, realizaram as ações necessárias para a efetivação da emancipação. Durante o governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira, houve a promulgação da Lei n.º 1039, de 12 de dezembro de 1953, estabelecendo a divisão administrativa e judiciária de Minas Gerais. Nessa ocasião, vários municípios foram emancipados, dentre eles: Porto Firme, Brás Pires, Bambuí, Capela Nova, Descoberto, São Miguel do Anta, Dores do Turvo e outros.

O artigo 9 da referida Lei determinou a nomeação de um intendente municipal com a missão de providenciar a organização inicial do município, dos serviços públicos, a arrecadação dos impostos e administrá-lo até a eleição municipal. Assim, foi nomeado o intendente Dr. Oscar Soares de Souza Lima Filho. A instalação do município de Porto Firme foi comemorada em primeiro de janeiro de 1954, com festas e discursos de lideranças políticas. No final do ano de 1954 houve eleições municipais e foi eleito o prefeito Francisco Xavier Chaves Paes.

Assim, estes aspectos supramencionados provavelmente foram decisivos para a efetivação do processo de emancipação política administrativa de Porto Firme. Esta emancipação foi apenas político-administrativa, pois este município continuou vinculado a Piranga na parte judiciária. Mesmo não havendo uma grande densidade populacional urbana, a conquista da emancipação gerou a expectativa de haver um melhor desenvolvimento local. A respeito desse aspecto, assim como ocorreu em outras cidades, as mudanças e as conquistas efetivadas em Porto Firme foram graduais, promovidas pela administração municipal, pelos habitantes, proprietários de terras, lideranças, e especialmente pelos líderes religiosos locais e da arquidiocese de Mariana.

Em se tratando da realidade de Porto Firme, o perfil urbano que prevaleceu por muitas décadas foi de uma relação muito próxima com o meio rural, bem como a existência de traços em comum, como a questão do ritmo ditado pelas estações do ano. No período chuvoso, havia muito barro, pontes destruídas pelas enchentes, mercadorias e pessoas impedidas de circularem, ao passo que, no período das secas, as pessoas eram obrigadas a conviver com a poeira e a dificuldade de manter suas casas limpas, dado que as vias públicas não possuíam pavimentação. Havia, ainda, uma grande incidência de insetos, como formigas, e outros.

Os primeiros administradores municipais realizaram algumas obras estruturais de alto custo, como a canalização da água da comunidade rural do Laranjal para a cidade, a instalação da energia elétrica e da telefonia, e a implementação da educação básica e da ordenação espacial. Estas decisões de realizar estes investimentos públicos demonstram o perfil de gestão municipal da cidade nesse período e foram determinantes no ordenamento inicial da cidade, bem como nas suas transformações posteriores.

Uma parte significativa do Livro n.º 1 das Leis Municipais de Porto Firme, elaboradas entre os anos de 1955 e 1961 (Leis 001/55 a 195/61), versou sobre os impostos e as taxações urbanas. Ou seja, para promover a urbanização inicial, foram instituídas algumas leis estabelecendo as principais fontes de recursos necessários para as primeiras ações do ordenamento urbano. No Quadro 1, a seguir, percebemos a existência de alguns elementos presentes na paisagem urbana de Porto Firme desse período, bem como de algumas características que marcaram esta localidade.

Quadro 1 – Leis promulgadas entre os anos de 1955 e 1961 e sua relação com elementos da paisagem urbana de Porto Firme
prefeitos
LEI
TEMA
DETALHES
Lei 05 de 21/02/1955 Plano Diretor da cidade de Porto Firme Esta lei tratou sobre o pagamento dos trabalhos realizados pelo topógrafo na construção do referido plano (Livro 1, p. 12).
Lei 07 de 21/02/1955 Formigas saúvas Existência de formigas saúvas no espaço tornado urbano e adjacências e ações do poder municipal voltadas para a sua extinção.
Lei 11 de 21/02/1955 Animais vagando pelas ruas da cidade (caprinos, suínos, cavalos, mulas) Criação de multas para tentar coibir tal fato.
Lei 15 de 21/02/1955 landestinidade comercial entativa de impedir a existência de estabelecimentos comerciais clandestinos e sonegadores de impostos.
Lei 22 de 09/05/1955 Rua Coração de Jesus Foi esta lei que a renomeou. Anteriormente ela era chamada Rua 13 de Maio.
Lei 33 em 27/10/1955 Planta topográfica e cadastral Realização do levantamento da planta topográfica e cadastral da sede do Município.
Lei 16 de 21/02/1955; Lei 90 de 1º/01/1958; Lei 115 de 1º/01/1959 e outras Serviço de limpeza pública Leis criadas para regulamentar este serviço, como a coleta e remoção de lixo realizado por meio de animais e veículos.
Lei 51 de 14/03/1956 e Lei 144 de 09/05/1959. Clube de futebol Criação do Porto Firme Futebol Club e do vestiário interno.
Lei 52 em 20/06/1956; Lei 65 de 21/02/1957, Lei 80 de 1º/01/1957; Lei 100 de 17/03/1958; Lei 109 de 07/07/1958; Leis 164 de 19/02/1960 e outras Iluminação pública/domiciliar Criação da cobrança de taxas pelo uso da iluminação e de aparelhos elétricos (rádio e passador de roupa), instalação da rede elétrica dos domicílios à rede pública. Foi construída a “Usina Elétrica de Sete Curvas”, posteriormente, renomeada para “Usina Elétrica de Santo Antônio”.
Lei 54 em 20/06/1956 e Lei 72 de 10/05/1957 Cemitério Neste período ele pertencia a Igreja Católica, mas a prefeitura contribuía financeiramente com algumas despesas (reparos, aquisições de materiais etc.).
Lei 82 de 17/07/1957 Lepra (hanseníase) Construção do pavilhão do Serviço Nacional da Lepra, ou seja, havia leprosos na cidade.
Lei 88 de 29/10/1957 Serviço de água lém desta lei, outras também foram promulgadas em prol deste serviço e de obras para abastecimento de água da sede do município.
Lei 111 de 17/07/1958 Templos religiosos A prefeitura auxiliava financeiramente nas obras de reconstrução e reformas dos templos religiosos, como o ocorrido na reconstrução da Igreja do Rosário.
Lei 119 de 06/12/1958 Açougue Construção de açougue - suínos/bovinos, destinado a abastecer a população da cidade, mediante concorrência pública.
Lei 124 de 06/12/1958 Reforço policial Reforço do policiamento na cidade no período de 20/09 à 06/11/1958. Abertura de crédito especial para pagamento de hospedagens deste reforço policial.
Lei 127- em 23/02/1959 Isenção de taxas e impostos Os beneficiários desta lei foram: o Hospital Dom Silvério, a Igreja Matriz e a casa paroquial.
Lei 157 de 16/10/1959 Cadastro imobiliário Revisão dos valores básicos dos lançamentos dos IPTU.
Lei 172 de 23/09/1960 Serviço de telefonia Instalação de linha telefônica de Porto Firme à Viçosa e do serviço telefônico na sede do Município.
Lei 175 de 23/09/1960 Grupo Escolar “Imaculada Conceição” (atual E. E. Imaculada Conceição) Obras de reparo nesta instituição e ajustes entre a PMPF e a Campanha de Reparo e Recuperação de Prédios Escolares do Estado (CARRPE).
Lei 184 de 10/11/1960 Remoção de casa/alinhamento de rua Remoção (amigável) de uma casa na Praça Getúlio Vargas, do Senhor José Josafá Sobreira, para retificar o alinhamento da Rua Dom Silvério, por meio de indenização ou auxílio.
Leis 186 de 04/04/1961; 189 de 28/11/1961, 190 de 28/11/1961 Empréstimos e aberturas de créditos Versou sobre empréstimo por antecipação de receita junto aos bancos públicos, como à Caixa Econômica, abertura de crédito especial e/ou suplementar.
Lei 187 de 04/04/1961 Delegacia Instalação da Delegacia de Recrutamento Militar e do Tiro de Guerra
Fonte: Elaborado pela pesquisadora a partir das legislações municipais, entre os anos de 1955 a 1961.


As regulamentações desse período foram estabelecidas pelos dois primeiros prefeitos de Porto Firme, Francisco Xavier Chaves Paes e João José de Barros, conhecidos como “Neném Paes” e “João de Barros”, respectivamente. Muitas obras, projetos e realizações dos serviços públicos da cidade foram executados a partir destas regulamentações promulgadas por essas lideranças juntamente com os integrantes da Câmara Municipal à época. É interessante perceber que as ações supracitadas impactaram significativamente nos delineamentos e nas transformações desta paisagem urbana.

Algumas leis também foram elaboradas no sentido de obrigarem os consumidores a pagar as taxas de impostos e serviços públicos, por meio de estabelecimento de punições aos habitantes inadimplentes, sob pena, inclusive, de ficarem sem os serviços Por outro lado, os referidos ex-prefeitos de Porto Firme criaram várias leis de perdão de multas (desobrigando do pagamento de taxas) a pessoas específicas ou não.

Depreende-se que as tentativas de planejar a cidade, de organizá-la, e a preocupação com sua imagem se fizeram presentes desde as ações da administração municipal, composta pelos poderes legislativo e executivo. Por exemplo, durante a gestão municipal do Senhor Francisco Xavier, houve a criação da Lei 05, de 21 de fevereiro de 1955, que dizia respeito à contratação de um topógrafo para elaborar o plano diretor da cidade, e da Lei 33, de 27 de outubro de 1955 para a realização de levantamento da planta topográfica e cadastral da sede do Município. Na década de 1960 já havia uma preocupação da administração municipal com o embelezamento da cidade, inclusive, na região próxima à Escola Estadual Imaculada Conceição (EICON), e no local onde foi construído, posteriormente, o Paço Municipal.

Junto com a edificação de um grande templo religioso católico, muitas transformações na paisagem acompanham esta construção. No caso de Porto Firme, houve uma relação estreita nas ações envolvendo a edificação da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, a urbanização e a modernização da região próxima a ela.

2.1 A Igreja Matriz de N. S. da Conceição e a paisagem desta região

Alguns fatos ocorridos na década de 1940, como a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição (conhecida como Nova Matriz), e demais providências que culminaram com sua inauguração, ocorrida em 1952, são fundamentais para a compreensão do processo de municipalização e da transformação da paisagem de Porto Firme.

Em 1935 chegou ao Distrito de Porto Seguro o padre Raimundo Gonçalo Ferreira, tendo ele permanecido até 1955. Neste período, a então capela de “Nossa Senhora da Conceição” se tornou paróquia, e a Igreja se tornou Matriz “Nossa Senhora do Rosário”, tendo para si conferida, a partir disso, alguns direitos e privilégios específicos de igrejas paroquiais. O núcleo urbano situava-se próximo desta Igreja, num lugar mais alto do povoado, em direção à saída para a cidade de Guaraciaba, do lado esquerdo do rio Piranga.

Entre os anos de 1945 e 1952, sob a liderança do referido padre, com empenho e muita colaboração dos fiéis católicos porto-firmenses, a obra da nova Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição foi concluída do lado direito do rio Piranga. Para a conclusão desta edificação religiosa muitos esforços, campanhas, leilões, doações de materiais, de mão de obra e recursos foram empregados – tudo isso sem perder de vista que se tratava de um período em que as estradas e os maquinários eram muito precários. Naquela época, o tijolo era um dos materiais mais usados nas edificações, e as forças animal e humana eram as que prevaleciam. O projeto de construção inicial da Igreja previa a sua edificação no local onde é a E. E. Imaculada Conceição. Entretanto, conforme relatos, os líderes da ação decidiram construí-la num lugar mais elevado, o que tornou o templo religioso um elemento da paisagem urbana ainda mais evidenciado. Na ocasião, fizeram um templo impactante, imponente, em termos de estrutura física.

O poder de liderança que o Padre Raimundo tinha na comunidade era evidente. As duas estratégias planejadas por ele no sentido de embelezar este grande templo religioso foram as pinturas no teto e nas paredes e a aquisição e instalação dos vitrais, de imagens e dos sinos. Nesta Nova Matriz há seis vitrais no altar-mor que representam, em ordem cronológica, os acontecimentos e narrações bíblicas ou da vida de Jesus. Há outros vitrais com representações religiosas instalados nas fachadas laterais deste templo, os quais foram recebidos por doações de famílias porto-firmenses.

Momentos da Construção da Igreja Matriz de N. S. da Conceição - entre os anos de 1945 e 1952
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Destacamos alguns elementos desta edificação: seu formato é de cruz latina, tem dimensões com maior profundidade e menor largura, ocupa um “quarteirão de larga extensão”, com “afastamentos laterais e posterior”, e foi construída em estilo eclético e neoclássico.

A “Nova Matriz”, como qualquer outra edificação, também necessitou passar por intervenções ao longo do tempo, de ordem preventiva e corretiva, em danos causados especialmente por ação de intempéries. Esses cuidados são necessários para a conservação da integridade física e estética do patrimônio. De forma geral, estas reformas e restaurações sempre estiveram sob a coordenação dos párocos desta igreja, com colaboração da comunidade.

Este novo núcleo urbano formado na região da Matriz de Nossa Senhora da Conceição é marcado por uma projeção do uso dos espaços, a longo prazo. Isto foi decisivo para termos, nesta região, traçado retilíneo, em linhas simétricas, bem como ruas e avenidas com maior espaçamento/largura, de forma geral, voltadas principalmente para a circulação de veículos e de mercadorias. Percebemos, ainda, desde os tempos mais remotos, a introdução de elementos de embelezamento, arborização, a ampliação das áreas construídas etc.

Além do mais, as lideranças locais optaram por realizar o novo núcleo num lugar com distância e altura consideráveis em relação às margens do rio Piranga. Os loteamentos na região da Nova Matriz possibilitaram, ainda, o deslocamento dos moradores interessados em sair da atual Praça Juquinha Moreira, devido às tragédias causadas pelas enchentes do rio. Porém, a povoação na referida praça persistiu, mesmo depois de recorrentes inundações e prejuízos.

No mapa parcial da divisão territorial urbana (Figura adiante), temos uma representação da região próxima da “Nova Matriz,” num período bastante recuado. Podemos observar o ordenamento inicial, com muitos lotes já definidos – alguns numerados e outros não. Nesse registro já havia, também, a identificação de algumas ruas: Dom Silvério, Coração de Jesus, Avenida 18 de Agosto e a Praça Coração de Jesus (atual Praça Antônio Camargos). Temos, ainda, a identificação de algumas glebas (terrenos) com seus respectivos tamanhos e proprietários. Já havia o campo de futebol, pertencente à Igreja Nossa Senhora da Conceição de Porto Firme, e também o terreno onde foi construída a referida Igreja. As duas propriedades (1ª e 2ª glebas) do Senhor José Josafat Sobreira se destacam na imagem devido às suas dimensões maiores que as demais, e ainda não divididas ou loteadas.

Mapa parcial da divisão territorial urbana, próxima da Igreja Matriz, (s/d)
Fonte: Acervo pessoal de Nelson Avelar Guimarães.

Por volta dos anos de 1960, a região da “Nova Matriz” tinha uma paisagem composta por construções simples de telhado colonial, próprias daquele contexto histórico e tendo muitos espaços vazios, o que evidenciava uma realidade de espaço em construção. Já havia algumas ruas e avenidas largas e bairros pré-definidos, conforme a Figura, a seguir, a exemplo das Ruas Dom Silvério e Santo Antônio, Avenida 18 de Agosto e das primeiras construções. O local onde hoje é a Praça Padre Raimundo ainda era um espaço vazio, assim como em outros pontos da cidade, registrados nesta e em outras imagens. A imagem evidencia também o lado mais antigo da cidade (lado esquerdo do rio Piranga), tendo uma maior concentração de construções, em meados da década de 1960.

Ruas Dom Silvério e Santo Antônio, Av. 18 de Agosto e as primeiras construções próximas da Igreja Matriz de N. S. da Conceição, década de 1960, aproximadamente
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Segundo relatos, na década de 1950 e, por algumas décadas posteriores, a realidade local era muito precária e com inúmeras dificuldades na área de transportes, circulação, comunicação etc. A presença e a circulação no espaço urbano dos moradores das áreas rurais ocorriam por motivos de participações nas celebrações religiosas, cívicas e aquisições de mercadorias e outras. Em tempos mais recuados, era muito recorrente haver uma concentração de charretes com cavalos, ou apenas os animais amarrados em árvores na Praça Central. Posteriormente, isto passou a ocorrer nas áreas próximas à Igreja Matriz. Havia uma maior concentração destes meios de transporte, principalmente aos domingos, dia em que os moradores da zona rural vinham às celebrações dominicais (missas).

Essa realidade e essa paisagem urbana foi se alterando significativamente, não só pelo uso cada vez maior de veículos automotores, como também por outros aspectos. As mudanças mais significativas na paisagem das proximidades da Igreja Matriz iniciaram-se no final da década de 1940 e foram sendo executadas ao longo do tempo. A pavimentação das vias públicas foi uma das demandas mais desejadas, porém, demorada. As principais vias públicas foram construídas como uma largura significativa e num formato retilíneo. A maioria delas foi pavimentada com asfaltamento entre as décadas de 1970 e 1980, exceto o Adro da Igreja, que é pavimentado com pedras retangulares. Antes disso, os transtornos cotidianos advindos da poeira ou do barro eram um grande problema.

A Figura a seguir apresenta um recorte da região da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, com destaque no Bairro Josafat Sobreira, entre 1982 e 2013. Este bairro está localizado acima da Rua Dom Silvério, onde está a Igreja. Em termos de ocupação do solo e edificações, seu crescimento em três décadas foi significativo. A referida imagem evidencia que a construção da Nova Matriz em Porto Firme impactou na transformação da paisagem desta região, sobre a qual é possível perceber uma tendência de povoamento e de crescimento nas proximidades do templo religioso.

Região da Igreja Matriz N.S. da Conceição, com destaque no Bairro Josafat Sobreira - 1982 e 2013
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

Em 2017, a prefeitura realizou obras de infraestrutura neste bairro, em uma rua identificada como “Rua Projetada (calçamento, sarjeta, meio fio, passeio e rede de esgoto)”. Assim, como neste exemplo, esta paisagem urbana foi sendo transformada paulatinamente a partir deste ordenamento urbano relacionado às construções, obras públicas etc.

Até a década de 1990, aproximadamente, prevaleciam edificações de altimetria de um pavimento apenas, construídas no alinhamento da via, como na Avenida 18 de Agosto. Em 2011, a paisagem próxima da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição já tinha, em média, um ou dois pavimentos, com um certo distanciamento entre elas. Este cenário vem se alterando: as edificações estão sendo construídas com um maior número de pavimentos, entre três e quatro, e muitas delas são de uso misto, ou seja, residenciais e comerciais. Esta modificação dos elementos do espaço urbano implica não só na alteração da paisagem, mas também em outros contextos, principalmente de infraestrutura, que precisa acompanhar estas transformações.

Região da Igreja Matriz de N. S. da Conceição, 2011
Fonte: Acervo pessoal de F.M.B.W 9.

A Figura acima é uma imagem aérea da região da Igreja Matriz referente a 2011, a qual demonstra uma cidade típica do interior de Minas, tendo como destaque a Igreja Matriz e a existência de edificações com telhados coloniais, sustentados por pilares de alvenaria, como também coberturas feitas por uma estrutura metálica, conhecida como telhado paulista. As ruas e avenidas apresentam pavimentação asfáltica ou de pedras.

Ao lado direito da igreja está a casa paroquial e o Monumento Nossa Senhora das Graças. Ao seu lado esquerdo, anexo ao templo, foram construídos banheiros (masculino e feminino). E à frente da entrada principal da igreja há a Praça Padre Raimundo, num nível mais baixo que o Adro, tendo uma escadaria de acesso entre ambos. Uma parte significativa dos terrenos e lotes próximos da Nova Matriz era de propriedade da Igreja e, aos poucos, foram sendo vendidos ou doados para construção de instituições públicas.

Desde a inauguração da Igreja Matriz, a área onde está localizada passou a ser o novo centro do poder político-administrativo municipal, tendo a maior concentração de edificações públicas, a saber: Sindicato Rural de Porto Firme, APAE, a Prefeitura Municipal, Câmara Municipal, E.E. Solon Ildefonso, E.E. Imaculada Conceição, Unidade Básica de Saúde Prefeito José Maciel, Corporação Musical São Pedro. Outros elementos dessa paisagem da Praça Antônio Camargos, Praça Alfredo Quintas, Praça Juquinha Moreira, entre outras. Percebemos a existência de um processo de tratamento paisagístico diferenciado nesta região da Igreja Matriz, que contém maior número de praças e arborização variada. A região é valorizada pela infraestrutura existente, como água encanada, rede de esgoto, energia elétrica e limpeza urbana. Todos estes aspectos impulsionaram a existência de uma maior circulação de veículos, mercadorias e pedestres, impactando nesta paisagem.

As posturas adotadas nesta formação de um novo espaço urbano partiram de uma maior racionalidade e planejamento dos seus dirigentes e executores, bem diferente da região mais antiga da cidade de Porto Firme. Esta nova região se tornou cada vez mais valorizada devido ao recebimento dos maiores investimentos públicos e privados, bem como por ter uma topografia mais plana, bastante favorável às construções. Isto ocasionou maior expansão territorial, assim como segregação espacial e social nesta área urbana, próxima da Nova Matriz. O perfil dos proprietários desses terrenos passou a ser, naturalmente, de pessoas com maior poder aquisitivo, que adquiriram tanto para moradia como para comércio ou por investimento.

Diversos fatores certamente colaboraram para as transformações desta região próxima da Nova Matriz e de outras áreas da cidade, como a questão da elaboração de um planejamento estrutural. Estas mudanças ocorreram a partir da definição dos líderes dirigentes sobre as formas, técnicas e interações materiais e simbólicas num determinado espaço e tempo. Consequentemente, as mesmas foram influenciadas por questões históricas, culturais, políticas, econômicas e sociais. Muitas disputas, interesses divergentes e negociações certamente permearam este processo e definiram os resultados obtidos. São as escolhas políticas e administrativas, ações individuais e coletivas, que determinam a paisagem urbana. Nesta perspectiva, a paisagem existente em Porto Firme foi e continua sendo transformada cotidianamente, especialmente na região próxima à Matriz.